PROBLEMAS DO "ESPECTRO POLÍTICO"

Muita gente já deve ter se deparado com o famoso "Espectro Político", um plano cartesiano com "eixo x" indicando esquerda e direita e o "eixo y" indicando liberal e conservador.

Perceba que esse modelo é um modelo essencialmente matemático, absurdamente difícil de compreender a política ou as pessoas uma vez que a política é altamente mutável e as pessoas também. Afinal, aqueles que são imutáveis estão enterrados na jaula da ignorância e do Viés de Confirmação, incapaz de refletir de forma ampla e profunda ou de agregar novos conhecimentos.

Sim, você pode pensar de forma AMPLA como é a proposta dos textos desse blog, sem enquadrar-se no ringue de "bem contra o mal" que é pregado nas redes sociais. Não é porque sempre acha o presidente um idiota que não pode reconhecer uma boa ação política, nem o inverso, ao achar que ele conduz o país de forma impecável mas conseguir reconhecer deslizes. E olha só como você está obcecado, só de ler "presidente" associou ao Bolsonaro, mas esse texto é atemporal, serve desde Deodoro até quando o Brasil ainda for presidencialista.

É importante fugir desse espectro, primeiro pois todas as pessoas são complexas, complexo não é algo "difícil", só é algo que possui muitos pontos a serem analisados! A pessoa pode nascer em "berço de ouro" e ter uma empatia absurda com os "desfavorecidos" e isso não é imoral! Pelo contrário! Da mesma forma que alguém que nasce em situações de miséria podem ter um entendimento mais capitalista do mundo e isso também não é imoral! E digo mais, a pessoa pode pensar das duas formas ao mesmo tempo!

O Espectro político levado a sério muda uma série de pensamentos e correntes que não são da inteligência lógica e matemática, radicaliza pessoas e pessoas radicais invariavelmente acabam incorrendo em hipocrisia. Sim, o ser humano é um animal hipócrita, mas quem se ampara no espectro político ultrapassa os limites de hipocrisia e passa a dizer coisas como "Pobre de Direita não deveria existir" ou "Olha lá o privilegiado tentando falar com o povão, que ridículo".

Humanos! Sério que acham simples colocar pautas de forma tão rasa? Assumir o espectro político é ser o famoso "maria-vai-com-as-outras", demonstra falta de personalidade e opinião, isso te faz ser conduzido e USADO como massa de manobra para causas daqui e de lá, algumas obviamente com seu respaldo, outras que você não entende, não aprofunda e vira um passivo replicador.

Longe de apoiar o "Mamãe Falei" mas quando ele começou a fazer os vídeos eu achava incrível as respostas das pessoas entrevistadas que iam em manifestações e não sabiam argumentar o motivo de estarem lá. Altamente revelador sobre o fenômeno do algoritmo das redes sociais, é tão válido para manifestantes de qualquer natureza, a maioria não sabe e não se preocupa em saber para que está lá.

Então é contra manifestações? Obviamente eu não sou contra, pelo contrário, sinto falta de várias manifestações públicas sobre temas relevantes e do povo entender sua função de PODER, afinal, "todo o poder emana do povo". Quem sabe alguns leitores do blog não repliquem os estímulos para estudo?

O espectro político serve para a política como o terraplanismo serve para a cartografia. Percebam que nos extremos da "esquerda" e da "direita" encontram-se governos autocráticos, IMAGINA SÓ se a Terra não for PLANA! Sabiam que os extremos iam se encontrar na mesma latitude e longitude? Incrível, não é mesmo?

Assuntos complexos devem levar em consideração diversos fatores, vamos colocar pautas polêmicas para exemplo: Habitação Popular, Aborto e Legítima Defesa.

A habitação popular é um direito de todo o cidadão, no país capitalista a "propriedade privada" DEVE ser protegida e resguardada, PORÉM há processos de Preempção onde imóveis endividados, abandonados e que não cumprem um papel social têm preferência de serem adquiridos e transformados pelo Estado. Não é legal ver pessoas nas ruas sem condição de subsistência, mas essas pessoas todas estão lá pelos mais diversos motivos! Alguns tiveram frustrações amorosas, outros por drogas, outros por falência, outros que já nasceram nessa condição, outros por abandono da família, outros por complicações psiquiátricas... Não é fácil enquadrar o "morador em situação de rua" e definir o que deve ser feito com todos, os problemas estão lá atrás e corrigir tudo não é simples. O cidadão trabalhador gasta 30 anos pagando um imóvel com uma linha de crédito governamental, se atrasar os pagamentos "sua casa própria" é tomada pelo banco. Nada mais justo, afinal, a inadimplência é um problema grave mas vender a ideia de "casa própria" que só será sua depois de 30 anos é uma falácia absurda! Total falta de ética das instituições públicas e financeiras que permitem uma população nitidamente ignorante em inteligência financeira a se algemar e garantir sua linha de pobreza. Portanto é um tema onde as soluções são inicialmente de esquerda mas acabam servindo aos preceitos de direita?

Aborto é um processo natural ou induzido que afeta a mulher grávida, o pai da criança, a criança e toda a estrutura familiar e social que acolhem a gestação. Se lançar mão da visão religiosa para estabelecer uma legislação em um país laico, você está sendo autoritário e radical. Se lançar mão de medidas de controle social ou de natalidade, você está sendo autoritário e radical. Se você achar que a decisão cabe a mulher grávida, está desrespeitando o poder de decisão de todos os outros fatores que possuem impacto com a decisão do aborto. Se levar em consideração que essa mulher vive em uma sociedade machista, escolher por ela não retira só o direito sobre o próprio corpo, mas garante o autoritarismo masculino sobre direitos e deveres. Qual a solução, deixar pra mulher escolher? Fazer uma audiência pública para decidir por ela?

Legítima Defesa é absurdamente complexa. Sem o absoluto controle dos instintos humanos e das provas e evidências, qual o controle você possui sobre suas reações em situações extremas? Onde fica a chave de controle do uso proporcional da força para impedir o "mal maior"? Sempre que a legítima defesa é julgada um lado presume que as ações foram exageradas e tornam a vítima em agressor, o outro lado presume que ela foi correta e fundamental, legitimando condutas mais violentas que ultrapassam a defesa e viram um crime mais hediondo.

Em absoluto, lidar com situações "delicadas" usando a mentalidade do espectro político em plano cartesiano é como querer chegar de um lugar ao outro caminhando em uma esteira de academia. Há todo o esforço e exercício mas não se sai do lugar. Aprofunde os conceitos políticos em tudo o que eles afetam o mundo real, tenha empatia com o máximo de situações opostas à sua. Estude sobre economia e pense em soluções para os problemas, e depois nos problemas das suas soluções, e continue exercitando esse raciocínio até que veja mais do que aquilo que apresentam para você e possa escolher quais ideias julga boas ou ruins, livre do preconceito de serem ideias de esquerda ou direita, isso é como uma briga infantil e você já é um cidadão bem grandinho.

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